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VALOR ECONÔMICO | Expansão das clínicas populares e dos cartões de desconto levanta discussão sobre regulamentação desse mercado

  • há 24 horas
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VALOR ECONÔMICO | Expansão das clínicas populares e dos cartões de desconto levanta discussão sobre regulamentação desse mercado

Publicado por Valor Econômico (Valor Setorial - Saúde) | 30/6/2026 | Clique aqui e veja o conteúdo original


Essas modalidades de atendimento, como Cartão de Todos e dr.consulta, funcionam como instrumentos de acesso a preços reduzidos em consultas, exames, medicamentos, mas ainda se discute sobre se devem ou não ser reguladas


O mer­cado de clí­ni­cas popu­la­res e car­tões de des­conto em saúde está em ascen­são. Esse seg­mento cres­ceu ofe­re­cendo con­sul­tas, exa­mes e outros aten­di­men­tos a pre­ços redu­zi­dos, em um modelo de negó­cio que não con­corre dire­ta­mente com os pla­nos e segu­ros regu­la­dos pela Agên­cia Naci­o­nal de Saúde Suple­men­tar (ANS) e busca aten­der quem ainda está fora da saúde suple­men­tar.


A dife­rença entre esses pro­du­tos está na natu­reza jurí­dica e eco­nô­mica. Os pla­nos e segu­ros de saúde abran­gem cober­tura assis­ten­cial regu­lada, enquanto os car­tões de des­conto fun­ci­o­nam como ins­tru­men­tos de acesso a pre­ços redu­zi­dos em con­sul­tas, exa­mes, medi­ca­men­tos — e ainda se dis­cute sobre a neces­si­dade de sua regu­la­men­ta­ção.


É um mer­cado pul­ve­ri­zado, com empre­sas naci­o­nais, redes regi­o­nais, pla­ta­for­mas digi­tais, pro­gra­mas de bene­fí­cios e car­tões vin­cu­la­dos a clí­ni­cas, labo­ra­tó­rios e far­má­cias. Parte das empre­sas que ini­ci­a­ram suas ati­vi­da­des com clí­ni­cas popu­la­res pas­sou a ofe­re­cer pro­gra­mas pró­prios de assi­na­tura ou car­tões de des­conto. É o caso do Car­tão de Todos, dr.con­sulta e Atend Já.


Sem dados ofi­ci­ais, esti­ma­ti­vas do setor apon­tam entre 40 milhões e 60 milhões de bra­si­lei­ros aten­di­dos no ano de 2025. A Asso­ci­a­ção Naci­o­nal das Empre­sas de Bene­fí­cios e Aten­ção Pri­má­ria e Secun­dá­ria (Ane­baps), por exem­plo, con­grega nove empre­sas com foco em aten­ção pri­má­ria e secun­dá­ria. Pre­sen­tes em 18 Esta­dos, com 144 clí­ni­cas, mais de qua­tro mil pro­fis­si­o­nais de saúde, essas empre­sas aten­dem por ano quase qua­tro milhões de paci­en­tes úni­cos. No setor, algu­mas empre­sas com­bi­nam rede pró­pria de clí­ni­cas com pro­gra­mas de assi­na­tura; outras apos­tam em fran­quias ou redes cre­den­ci­a­das.


Já um levan­ta­mento da Asso­ci­a­ção Bra­si­leira das Empre­sas de Car­tões de Saúde (Abecs) — que repre­senta com­pa­nhias que atuam com car­tões de des­conto — mos­tra que 250 empre­sas ofe­re­cem esse tipo de ser­viço, com oito milhões de ade­ren­tes e aten­di­mento de 16 milhões a 20 milhões de pes­soas por ano. Desse volume, 180 são asso­ci­a­das da Abecs, com per­fil de pequeno e médio porte e ope­ra­ção regi­o­nal.


Pio­neiro no seg­mento, o Car­tão de Todos nas­ceu em 2001, em Ipa­tinga (MG), com foco exclu­sivo em saúde. “A par­tir de 2008, come­ça­mos a abra­çar outras ofer­tas de des­conto, como lazer e edu­ca­ção, e nos trans­for­ma­mos no que somos hoje, um ecos­sis­tema de bens e ser­vi­ços essen­ci­ais, sobre­tudo para as clas­ses C e D”, resume Aqui­les Vilar, vice-pre­si­dente da Car­tão de Todos, que tem uma men­sa­li­dade única de R$ 33,40, com acesso a toda a rede de bene­fí­cios, inclu­indo odon­to­lo­gia.


Em 2008, a com­pa­nhia sepa­rou a ope­ra­ção do car­tão de des­conto e dos ser­vi­ços médi­cos e, em 2016, criou a marca Amor­Sa­úde. Hoje, atende cerca de sete milhões de famí­lias (20 milhões de usu­á­rios) e opera mais de 500 clí­ni­cas em todo o país, com meta de alcan­çar mil até 2028, segundo Bea­triz


A dr.con­sulta nas­ceu como star­tup e opera com mais de 30 cen­tros médi­cos. Com cerca de 1.400 pro­fis­si­o­nais de saúde, a empresa atua em mais de 60 espe­ci­a­li­da­des e ofe­rece apro­xi­ma­da­mente três mil tipos de exa­mes. “Mais de qua­tro milhões de paci­en­tes já uti­li­za­ram nos­sos ser­vi­ços”, diz Mas­sa­nori Shi­bata Jr., CEO da dr.con­sulta e pre­si­dente da Ane­baps.


O grupo ini­ciou a expan­são naci­o­nal por meio da tele­me­di­cina, um bene­fí­cio indi­vi­dual com men­sa­li­dade de R$ 9,90. Hoje, a com­pa­nhia rea­liza cerca de 300 mil aten­di­men­tos men­sais, dos quais quase 20% já acon­te­cem remo­ta­mente. A dr.con­sulta tam­bém pos­sui ser­vi­ços de assi­na­tura, com men­sa­li­da­des a par­tir de R$ 34,90 e R$ 39,80, inclu­indo opções com cober­tura odon­to­ló­gica.


A Atend Já, cri­ada em 2016 em Lon­drina (PR), está em 22 Esta­dos, com mais de 150 fran­quias comer­ci­a­li­za­das, 80 uni­da­des em fun­ci­o­na­mento, rede de apro­xi­ma­da­mente 800 médi­cos e mais de qua­tro milhões de aten­di­men­tos acu­mu­la­dos. Em 2025, a empresa fatu­rou R$ 25 milhões e, neste ano, pro­jeta receita de R$ 35 milhões.


Além das con­sul­tas, exa­mes labo­ra­to­ri­ais e de ima­gem, medi­cina do tra­ba­lho e finan­ci­a­mento de cirur­gias, a empresa lan­çou em 2025 o pró­prio car­tão de bene­fí­cios, com taxa de ade­são de R$ 50 e men­sa­li­dade de R$ 59,90 para até cinco depen­den­tes.


Há con­senso de que as clí­ni­cas popu­la­res e os car­tões de des­conto sur­gi­ram para aten­der um vazio do ser­viço de saúde, ocu­pando espaço entre o Sis­tema Único de Saúde (SUS) e os pla­nos de saúde. “Hoje, 75% da popu­la­ção não pos­sui pla­nos pri­va­dos”, diz Rafael Grizzo, CEO e fun­da­dor da Atend Já.


No entanto, nem todos enxergam esse modelo como solu­ção para ampliar o acesso à saúde. Para Lucas Andri­etta, pro­fes­sor da Facul­dade de Saúde Pública da Uni­ver­si­dade de São Paulo (USP), as clí­ni­cas popu­la­res podem redu­zir o tempo de espera para con­sul­tas e exa­mes, mas não subs­ti­tuem polí­ti­cas públi­cas nem ali­viam a pres­são sobre o SUS. “Esse tipo de gasto direto das pes­soas tem baixo grau de reso­lu­ti­vi­dade, apro­funda desi­gual­da­des de acesso e não subs­ti­tui nem ali­via o SUS.”


Como esses ser­vi­ços cres­ce­ram em um vácuo nor­ma­tivo, a dis­cus­são sobre a regu­la­ção desse mer­cado retorna de tem­pos em tem­pos. Em abril, por exem­plo, a ANS criou um comitê interno para estu­dar esses mer­ca­dos e seus aspec­tos téc­ni­cos, assis­ten­ci­ais, jurí­di­cos, eco­nô­mi­cos, soci­ais e regu­la­tó­rios.


O tema vol­tou à pauta da ANS após deci­são do Supe­rior Tri­bu­nal de Jus­tiça (STJ), que reco­nhe­ceu a com­pe­tên­cia da agên­cia para regu­la­men­tar e fis­ca­li­zar os car­tões de des­con­tos em ser­vi­ços de saúde. “A agên­cia vai ava­liar a ela­bo­ra­ção de nor­mas que garan­tam os direi­tos dos con­su­mi­do­res, a trans­pa­rên­cia das infor­ma­ções, a cla­reza na oferta dos ser­vi­ços e a redu­ção do risco de prá­ti­cas que indu­zam o con­su­mi­dor a con­fun­dir esses pro­du­tos com pla­nos de saúde”, informa a ANS. Além do comitê interno, a agên­cia abriu uma con­sulta pública para cole­tar infor­ma­ções sobre os car­tões de des­conto e as clí­ni­cas popu­la­res.


Andri­etta, da USP, vê com ceti­cismo a deci­são da ANS: “A ideia difusa de ‘regu­lar o setor’ pode pare­cer bem-vinda em abs­trato, mas nunca foram apre­sen­ta­dos argu­men­tos téc­ni­cos, assis­ten­ci­ais ou eco­nô­mi­cos, que demons­trem qual­quer mudança na maneira como os ser­vi­ços são pres­ta­dos ou qual­quer bene­fí­cio para a popu­la­ção”. Ele entende que as clí­ni­cas já estão sujei­tas à regu­la­ção sani­tá­ria, como qual­quer esta­be­le­ci­mento de saúde.


Para Aline Gon­çal­ves Lou­renço, sócia do escri­tó­rio Bhe­ring Cabral Advo­ga­dos, a regu­la­men­ta­ção é rele­vante por­que esse mer­cado cres­ceu em uma zona de baixa cla­reza regu­la­tó­ria. “O ponto essen­cial é evi­tar que o con­su­mi­dor acre­dite estar con­tra­tando um plano de saúde, quando, na ver­dade, con­tra­tou ape­nas um pro­grama de des­con­tos”, des­taca. Ela alerta que o risco maior está na comu­ni­ca­ção comer­cial ambí­gua, quando o pro­duto é ven­dido com apa­rên­cia de cober­tura, mas juri­di­ca­mente ofe­rece ape­nas des­conto. Ela con­si­dera que a regu­la­ção deve tra­zer pre­vi­si­bi­li­dade às empre­sas, padro­ni­za­ção mínima de infor­ma­ções e neces­si­dade de ade­qua­ção de con­tra­tos, publi­ci­dade, rede par­ceira, cri­té­rios de preço e canais de aten­di­mento.


A Abecs é favo­rá­vel às nor­mas. “Nós enten­de­mos que essa regu­la­ção é abso­lu­ta­mente salu­tar e que esse mer­cado pre­cisa ser regu­lado o mais rapi­da­mente pos­sí­vel”, diz Breno Car­ley San­tos, pre­si­dente da enti­dade. Shi­bata Jr., pre­si­dente da Ane­baps, con­si­dera a ini­ci­a­tiva da ANS posi­tiva. Ele defende, no entanto, que o pro­cesso não seja res­tri­tivo nem com­pro­meta o acesso de milhões de bra­si­lei­ros que uti­li­zam esses ser­vi­ços como alter­na­tiva aos pla­nos tra­di­ci­o­nais. “Uma regu­la­ção ina­de­quada pode pre­ju­di­car prin­ci­pal­mente con­su­mi­do­res que con­tra­tam o ser­viço de forma direta.”


Outros têm dúvi­das se há neces­si­dade de regu­la­men­tar o setor. É o caso de Vilar, da Car­tão de Todos. “A inter­ven­ção do Estado só se jus­ti­fica quando há falhas de mer­cado que com­pro­me­tam o inte­resse público, cená­rio que não está claro neste momento.”

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